enviado por Jelly Legs Anita
Eu queria começar com uma poesia ou um texto de um bom escritor. Mas o momento pede outra coisa. Um desabafo. Um outro ponto de vista.
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Ruas, lojas, escritórios, propagandas, roupas, tudo é contaminado pelo verde e amarelo, e que além de tudo o mais, nem sempre é usado com coerência. Não se fala em outra coisa. Começou a Copa do Mundo.
O brasileiro só pensa no ‘hexa’. Quinquilharias diversas e produtos de ocasião são vendidos aos montes por preços nada módicos. Uma camiseta oficial, por exemplo, chega a custar R$180,00. Mais do que meio salário mínimo, num país onde a maioria vive com menos que isso.
O país é banhando por um patriotismo hipócrita, que só acontece nessas ocasiões. Essa onda de patriotismo é fomentada pela imprensa, pelos políticos e pelas grandes corporações multinacionais.
Enquanto a competição rola na Alemanha, a crise política só piora por aqui. E quase ninguém vê, porque o que importa é classificação da seleção nos jogos. Isso em um ano de eleições em que o brasileiro devia estar atento para poder votar com mais consciência. Absurdamente, existe até boatos da estimativa de influência que a vitória da seleção brasileira pode causar no resultado das eleições.
A população aceita isso naturalmente. Mais que isso, é impressionantemente triste ver a mobilização da sociedade em torno da Copa, enquanto outros assuntos mais graves que ocorrem no país (como eleições, corrupção, falta de segurança, fome, desigualdade social, etc) permanecem na maior indolência. A bolha no pé do jogador fenômeno preocupa mais do que as bolhas nos pés dos desempregados, ou do que os calos nas mãos de trabalhadores em jornadas de trabalho sacrificantes.
Futebol hoje é negócio. Os recursos financeiros envolvidos com o futebol são prodigiosos. A revista inglesa Marketing, por exemplo, avaliou a seleção brasileira em 30,8 milhões de dólares, considerando apenas as chances de propaganda com a marca do Brasil. É a quarta posição, compartilhada com o Japão. O primeiro lugar é da Inglaterra (91,5 milhões), seguida pela Itália (55,5 milhões) e França (47,6 milhões). (ref)
O futebol também é mercadoria de exportação valiosa. Em 2005, diz o Banco Central, o futebol rendeu 158 milhões de dólares nesse item, basicamente com a venda de atletas – valor que representa 2,5% dos 6 bilhões de dólares de serviços empresariais e técnicos exportados pelo Brasil naquele ano. (ref)
Daí fica fácil entender como um jogador de futebol ganha muito mais que um professor, um médico ou um artista. Fácil de entender, mas difícil de aceitar. Inaceitável para todos deveria ser. É lamentável ver um jogador que ganha tanto, não saber nem cantar o Hino Nacional, tampouco tentar falar corretamente o tão desprezado português. E saber que isso vai servir de exemplo para tantas crianças por ai… É de chorar.
Não defendo aqui que o futebol seja abandonado, que se deixe de brincar, se deixe de assistir aos jogos, se é que isso ainda te diverte. Mas é importante ter consciência de tudo que está envolvido e de não se deixar manipular. Antes de ligar a tv, de sair comemorando e de adquirir um patriotismo de copa, pense e tome conhecimento do que está acontecendo por trás disso tudo; quem realmente está ganhando com esse evento, com esse negócio que transformaram o futebol. Somos seres pensantes, temos o privilégio de raciocínio e análise. Não devemos abrir mão disso, e deixar que nos manipulem.
Que fique claro: essa não é uma crítica ao esporte, mas sim ao que fizeram com ele e à falta de consciência do cidadão. O espírito esportivo permanece quando surgem seleções que sem tantos compromissos financeiros ainda conseguem exercer um futebol com garra e encanto. Porém é cada vez mais raro de se ver.
Esporte como entretenimento, sim. Mas como instrumento de alienação, não.
Uma animação ilustra bem isso tudo.