July 27, 2006

O Silêncio

categoria: Dilatações
enviado por Jelly Legs Anita

O mundo, às vezes, fica-me tão insignificativo
Como um filme que houvesse perdido de repente o som.
Vejo homens, mulheres: peixes abrindo e fechando a boca num aquário.
Ou multidões: macacos pula-pulando nas arquibancadas dos estádios…
Mas o mais triste é essa tristeza toda colorida dos carnavais
Como a maquilagem das velhas prostitutas fazendo trottoir.
Às vezes eu penso que já fui um dia um rei, imóvel no seu palanque,
Obrigado a ficar olhando
Intermináveis desfiles, torneios, procissões, tudo isso…
Oh! Decididamente o meu reino não é deste mundo!
Nem do outro…

Mario Quintana

July 26, 2006

Pelinha

categoria: Contrações
enviado por Jelly Legs Anita

Há uma pelinha no canto do dedo.
Sabe aquelas que ficam penduradas, balançando e doendo? Pois é.

E eu só reconheci que era a tal pelinha que incomodava tanto, quando expus minha tormenta a uma amiga querida. Diagnosticado o problema, nós pensamos e conversamos sobre maneiras para acabar com o incômodo.
Eu pensei em arrancá-la. Era uma solução definitiva que, no entanto, machucaria e causaria dor maior.  Porém minha amiga, uma pessoa sensível, sugeriu que eu usasse uma tesoura e cortasse a pelinha bem rente ao dedo, pois assim não haveria ainda mais dor.

Eu sou tão desorganizada e não consigo encontrar a tesoura.
Deve estar perdida em algum pedaço de inconsciência… Ou em alguma gaveta do futuro… Em algum lugar que ainda não tenho acesso.

Enquanto isso… Vou fazendo um tratamento homeopático, com pequeníssimas doses de consciência cicatrizante. Já tentei doses maiores, o que é inútil porque somente pouca quantidade de componente ativo é absorvida.

A pelinha vai secando muito lentamente e parece que nunca cairá por si só. E eu continuo a procurar a tesoura.

July 22, 2006

Direitos

categoria: Dilatações
enviado por Jelly Legs Anita

Liberdade (II)

Houve um diálogo difícil. Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais.
- Mamãe, tire esse cabelo da testa.
- É um pouco de franja ainda.
- Mas você fica feia assim.
- Tenho o direito de ser feia.
- Não tem!
- Tenho!
- Eu disse que não tem!
E assim foi que se formou o clima de briga. O motivo não era fútil, era sério: uma pessoa, meu filho no caso, estava-me cortando a liberdade. E eu não suportei, nem vindo de filho. Senti vontade de cortar uma franja bem espessa, bem cobrindo a testa toda. Tive vontade de ir para o meu quarto, de trancar a porta a chave, e de ser eu mesma, por mais feia que fosse. Não, não "por mais feia que fosse": eu queria ser feia, isso representava meu direito total à liberdade. Ao mesmo tempo eu sabia que meu filho tinha os direitos dele: o de não ter uma mãe feia, por exemplo. Era o choque de duas pessoas reivindicando - o quê, afinal? Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo.

Clarice Lispector

July 20, 2006

Brincando de filosofar

categoria: Contrações
enviado por Jelly Legs Anita

Como tudo começou

Até bem pouco tempo Nietzsche era para mim, apenas um nome feio.

O primeiro contato, veio através de um amigo que enviou algumas citações por email. Achei bacana, mas ainda não suficiente para me instigar a investigar sobre as idéias do filósofo (um dos mais controversos da filosofia moderna).

Algum tempo depois, surgiu a oportunidade de assistir a uma palestra das idéias de Nietzsche relacionadas com a modernidade. Ouvi muito falar de Além-homem. Mas de fato, não entendi nada.
No dia seguinte, após o almoço, veio a primeira definição de além-homem: "O homem evoluído que está acima do bem e do mal. Ele age de acordo com o que for melhor para si, independente de moral. Se ele quiser matar alguém, ele mata e isso não é julgado como incorreto, pois ele ignora a moral".

Tive uma indigestão. Fiquei chocada, perplexa com essa definição. Pirei nisso por dias, afinal não fazia sentido. Muitas coisas passaram por minha cabeça, mas basicamente eu não me conformava com a idéia do ser humano evoluir para se tornar alguém pior e mais egoísta do que já é.

Eu pesquisei e li sobre. Outras conversas mais sensatas vieram… Trocas de idéias com amigos.
Então encontrei umas anotações que fiz ao assistir ao dvd de um programa com Paulo Gaudêncio, em que ele, entre muitas coisas, citava Immanuel Kant.

Juntando as discussões com os amigos, as pesquisas e as anotações, eu elaborei uma concepção de além-homem. De um ponto de vista bem pessoal, percebi um conceito diferente do que aquele que é disseminado. E por isso compartilho aqui.

Lembrem-se que não sou filósofa, nem estudiosa das idéias de Nietzsche. Porém me permito ‘brincar’ de filosofar, apresentando os recortes e ligações que fiz, propondo reflexão a quem interessar.

Recortes e conceitos

1) O homem se torna um ‘Super-homem’ ou Além-homem’ através da Vontade de Poder, manifestado de duas maneiras:
- destrutivamente pela rejeição, rebeldia e rebelião contra VELHOS ideais e códigos morais;
- criativamente em superar o nihilismo e em REAVALIAR ideais velhos ou em CRIAR novos.
(ref: Wikipédia)

2) Esse super-homem não é um ser cuja vontade é dominar. Se a vontade de poder for interpretada como desejo de dominar, faz-se dela algo dependente dos valores estabelecidos. E nessa condição, ela é descaracterizada como criativa, capaz de reavaliar e criar.
(ref: Mundo dos Filósofos)

3) Immanuel Kant apresenta em um dos textos de ‘Crítica da Razão Prática’, que no mundo há coisas e pessoas. O que as diferencia é o valor.
O valor das coisas é o preço, e assim podem ser intercambiadas, substituídas e comercializadas. O valor das pessoas é intrínseco, é uma característica da natureza humana: a dignidade.
Para a dignidade ser conservada é preciso:
- que a pessoa possa viver emoções, e de forma adequada: agressividade, afetividade, etc.
- que a pessoa seja tratada como MAIOR. E assim sendo tratada, torna-se autônoma.
(ref: ‘Ser companheiro em tempos de crise’, Paulo Gaudêncio)

4) Supondo que e as regras de trânsito sejam eliminadas e cada motorista, faça o sentido que lhe convir.  Obviamente uma cidade como São Paulo, pararia completamente em questão de segundos. Então, tornaria-se necessário uma reunião dos cidadãos para um consenso. E novas normas seriam estabelecidas e certamente ruas teriam sentido único novamente. Possibilitado o entendimento do significado das normas, sou tratado como MAIOR e assim as sigo, naturalmente.
(ref: ‘Ser companheiro em tempos de crise’, Paulo Gaudêncio)

Minha concepção

O Além-homem, como sujeito que se rebela disposto a destruir velhos ideais, reavaliar e criar novos, não possui vontade de dominar. Pois o domínio seria sobre o já estabelecido, não havendo transmutação de valores, ou seja, nada seria reavaliado ou recriado.
Enquanto pessoa, o além-homem possui dignidade. E possuindo-a, vive as emoções, de maneira apropriada, ou seja, não inconseqüente e também sem reprimi-las. E é isso que o diferencia de um psicopata ou sociopata.
Sendo maior, o além-homem entende o significado das normas, e reconhecendo a necessidade da existência delas, não força mudá-las. Pois se forçasse seria domínio e não reavaliação e criação.
O além-homem é um ser autônomo, e não egocêntrico.

July 19, 2006

Porque…

categoria: Um sopro
enviado por Jelly Legs Anita

… às vezes meu coração não responde
Só se esconde e dói

trecho de Não vá ainda, por Zélia Duncan e Christiaan Oyens

July 17, 2006

Sobre desejos

categoria: Contrações
enviado por Jelly Legs Anita

Alguns amigos já conhecem.
Não é de agora. Como iniciei o dia conversando sobre ilusão e carência, lembrei-me desse.

* * *

Sobre desejos

Sexta
Desejei muito receber a ligação de alguém…
Era o SIM subjetivo em mim gritando contra todo o NÃO exterior e óbvio.
 
Sábado
Desejei muito poder retribuir um dia, de alguma forma, a atenção que recebi das crianças CARENTES do orfanato que visitei…
Era a minha CARÊNCIA sendo justamente reduzida diante da necessidade maior que tem uma criança de receber afeto.
 
Domingo
Desejei muito NÃO DESEJAR mais nada…
Afinal desejos não se realizam… São como os truques de mágica: ilusões que criamos para nos distanciar da realidade que não satisfaz.
 
Fechei os olhos e desejei mais uma vez…
Desejei que pudesse voltar a ser sexta, e que assim eu aproveitasse melhor os dias… Desejando menos e realizando mais.

July 14, 2006

Alô

categoria: Ausculte
enviado por Jelly Legs Anita

absurdo dos últimos dias me fez sentir como num poema de Mario Quintana… ‘Esse mundo não é o meu.’
E a música que não saiu da minha cabeça:

Alô, Alô, Marciano 
(Rita Lee/Roberto de Carvalho)

Alô, alô, marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano tá na maior fissura porque
Tá cada vez mais down o high society

Down, down, down
O high society

Alô, alô, marciano
A crise tá virando zona
Cada um por si todo mundo na lona
E lá se foi a mordomia
Tem muito rei aí pedindo alforria porque
Tá cada vez mais down o high society

Down, down, down
O high society

Alô, alô, marciano
A coisa tá ficando russa
Muita patrulha, muita bagunça
O muro começou a pichar
Tem sempre um aiatolá pra atola Alá
Tá cada vez mais down o high society

Down, down, down
O high society

Ouça!

July 12, 2006

Solidão é escolha

categoria: Dilatações
enviado por Jelly Legs Anita

Algo que você causa a si mesmo.
Medíocre é aquele que não percebe isso, e coloca no mundo a culpa por estar sozinho.

* * *

"(…) Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa a verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre."

Vinicius de Moraes

July 11, 2006

Rosas Silvestres

categoria: Dilatações
enviado por Jelly Legs Anita

Rosas Silvestres

Só esta expressão ‘rosas silvestres’ já me faz aspirar o ar como se o mundo fosse uma rosa crua. Tenho uma grande amiga que me manda de quando em quando rosas silvestres. E o perfume delas, meu Deus, me dá ânimo para respirar e viver.

As rosas silvestres têm um mistério dos mais estranhos e delicados: à medida que vão envelhecendo vão perfumando mais. Quando estão à morte, já amarelando, o perfume fica forte e adocicado, e lembra as perfumadas noites de lua de Recife. Quando finalmente morrem, quando estão mortas, mortas - aí então, como uma flor renascida no berço da terra, é que o perfume que se exala delas nos embriaga. Então mortas, feias, em de brancas ficam amarronadas. Mas como jogá-las fora, se mortas, elas têm a alma viva? Resolvi a situação das rosas silvestres mortas, despetalando-as e espalhando as pétalas perfumadas na minha gaveta de roupa.

Da última vez que minha amiga me mandou rosas silvestres, quando estas estavam morrendo e ficando mais perfumadas ainda, eu disse para meus filhos:
‘Era assim que eu queria morrer: perfumando de amor. Morta de exalando a alma viva.’

Esqueci de dizer que as rosas silvestres são de planta trepadeira e nascem várias no mesmo galho. Rosas silvestres, eu vos amo. Diariamente morro por vosso perfume.

Clarice Lispector

July 7, 2006

Lançamento MIB

categoria: Circulação
enviado por Jelly Legs Anita

Sábado, 08/07 às 19h30 na Casa das Rosas acontece o lançamento do cd "Música Impopular Brasileira" de Ozias Stafuzza. Pra quem não conhece, Ozias ou o Zi, trabalha com música brasileira há quase vinte anos. Chega agora com seu primeiro cd, uma produção independente e suada, com ritmos variados. O trabalho, que é de qualidade, merece no mínimo respeito pela iniciativa e força de vontade para realização. Ele compõe, canta, toca e também produziu.
A Débora Bertoncelo foi responsável pela identidade visual.

Veja o convite.

É isso ai… Eu faço propaganda dos amigos meeesmo. Acima do meu orgulho de amiga, é fato o emprenho dos dois na realização desse projeto, que ficou tão bom.




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