July 11, 2006

Rosas Silvestres

categoria: Dilatações
enviado por Jelly Legs Anita

Rosas Silvestres

Só esta expressão ‘rosas silvestres’ já me faz aspirar o ar como se o mundo fosse uma rosa crua. Tenho uma grande amiga que me manda de quando em quando rosas silvestres. E o perfume delas, meu Deus, me dá ânimo para respirar e viver.

As rosas silvestres têm um mistério dos mais estranhos e delicados: à medida que vão envelhecendo vão perfumando mais. Quando estão à morte, já amarelando, o perfume fica forte e adocicado, e lembra as perfumadas noites de lua de Recife. Quando finalmente morrem, quando estão mortas, mortas - aí então, como uma flor renascida no berço da terra, é que o perfume que se exala delas nos embriaga. Então mortas, feias, em de brancas ficam amarronadas. Mas como jogá-las fora, se mortas, elas têm a alma viva? Resolvi a situação das rosas silvestres mortas, despetalando-as e espalhando as pétalas perfumadas na minha gaveta de roupa.

Da última vez que minha amiga me mandou rosas silvestres, quando estas estavam morrendo e ficando mais perfumadas ainda, eu disse para meus filhos:
‘Era assim que eu queria morrer: perfumando de amor. Morta de exalando a alma viva.’

Esqueci de dizer que as rosas silvestres são de planta trepadeira e nascem várias no mesmo galho. Rosas silvestres, eu vos amo. Diariamente morro por vosso perfume.

Clarice Lispector

2 Comentários »

  1. curioso que o perfume delas só chega na hora da morte depois de uma vida inteira misturada entre outras iguais e escalando, escalando…

    Comentário por bibi.gil — July 14, 2006 @ 4:04 pm

  2. Pois é. Penso que devemos viver assim também… Escalando, escalando e da melhor forma… Para no final, morrermos exalando perfume ;=)

    Comentário por Jelly Legs Anita — July 31, 2006 @ 11:39 pm

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