Brincando de filosofar
Como tudo começou
Até bem pouco tempo Nietzsche era para mim, apenas um nome feio.
O primeiro contato, veio através de um amigo que enviou algumas citações por email. Achei bacana, mas ainda não suficiente para me instigar a investigar sobre as idéias do filósofo (um dos mais controversos da filosofia moderna).
Algum tempo depois, surgiu a oportunidade de assistir a uma palestra das idéias de Nietzsche relacionadas com a modernidade. Ouvi muito falar de Além-homem. Mas de fato, não entendi nada.
No dia seguinte, após o almoço, veio a primeira definição de além-homem: "O homem evoluído que está acima do bem e do mal. Ele age de acordo com o que for melhor para si, independente de moral. Se ele quiser matar alguém, ele mata e isso não é julgado como incorreto, pois ele ignora a moral".
Tive uma indigestão. Fiquei chocada, perplexa com essa definição. Pirei nisso por dias, afinal não fazia sentido. Muitas coisas passaram por minha cabeça, mas basicamente eu não me conformava com a idéia do ser humano evoluir para se tornar alguém pior e mais egoísta do que já é.
Eu pesquisei e li sobre. Outras conversas mais sensatas vieram… Trocas de idéias com amigos.
Então encontrei umas anotações que fiz ao assistir ao dvd de um programa com Paulo Gaudêncio, em que ele, entre muitas coisas, citava Immanuel Kant.
Juntando as discussões com os amigos, as pesquisas e as anotações, eu elaborei uma concepção de além-homem. De um ponto de vista bem pessoal, percebi um conceito diferente do que aquele que é disseminado. E por isso compartilho aqui.
Lembrem-se que não sou filósofa, nem estudiosa das idéias de Nietzsche. Porém me permito ‘brincar’ de filosofar, apresentando os recortes e ligações que fiz, propondo reflexão a quem interessar.
Recortes e conceitos
1) O homem se torna um ‘Super-homem’ ou Além-homem’ através da Vontade de Poder, manifestado de duas maneiras:
- destrutivamente pela rejeição, rebeldia e rebelião contra VELHOS ideais e códigos morais;
- criativamente em superar o nihilismo e em REAVALIAR ideais velhos ou em CRIAR novos.
(ref: Wikipédia)
2) Esse super-homem não é um ser cuja vontade é dominar. Se a vontade de poder for interpretada como desejo de dominar, faz-se dela algo dependente dos valores estabelecidos. E nessa condição, ela é descaracterizada como criativa, capaz de reavaliar e criar.
(ref: Mundo dos Filósofos)
3) Immanuel Kant apresenta em um dos textos de ‘Crítica da Razão Prática’, que no mundo há coisas e pessoas. O que as diferencia é o valor.
O valor das coisas é o preço, e assim podem ser intercambiadas, substituídas e comercializadas. O valor das pessoas é intrínseco, é uma característica da natureza humana: a dignidade.
Para a dignidade ser conservada é preciso:
- que a pessoa possa viver emoções, e de forma adequada: agressividade, afetividade, etc.
- que a pessoa seja tratada como MAIOR. E assim sendo tratada, torna-se autônoma.
(ref: ‘Ser companheiro em tempos de crise’, Paulo Gaudêncio)
4) Supondo que e as regras de trânsito sejam eliminadas e cada motorista, faça o sentido que lhe convir. Obviamente uma cidade como São Paulo, pararia completamente em questão de segundos. Então, tornaria-se necessário uma reunião dos cidadãos para um consenso. E novas normas seriam estabelecidas e certamente ruas teriam sentido único novamente. Possibilitado o entendimento do significado das normas, sou tratado como MAIOR e assim as sigo, naturalmente.
(ref: ‘Ser companheiro em tempos de crise’, Paulo Gaudêncio)
Minha concepção
O Além-homem, como sujeito que se rebela disposto a destruir velhos ideais, reavaliar e criar novos, não possui vontade de dominar. Pois o domínio seria sobre o já estabelecido, não havendo transmutação de valores, ou seja, nada seria reavaliado ou recriado.
Enquanto pessoa, o além-homem possui dignidade. E possuindo-a, vive as emoções, de maneira apropriada, ou seja, não inconseqüente e também sem reprimi-las. E é isso que o diferencia de um psicopata ou sociopata.
Sendo maior, o além-homem entende o significado das normas, e reconhecendo a necessidade da existência delas, não força mudá-las. Pois se forçasse seria domínio e não reavaliação e criação.
O além-homem é um ser autônomo, e não egocêntrico.

1- Muito boa definição! Realmente, tem muita gente que dá um sentido extremamente negativo pras idéias de Nietzche. Vi uma vez em um lugar que dizia que as idéias de Nietzche são frequentemente interpretadas de maneira tão oposta, que às vezes parecem com aquele teste de Rorschach (aqueles desenhos de manchas que os psicólogos usam). A conclusão depende não do desenho ou do texto, mas sim de quem lê ou observa. Reflete a personalidade da própria pessoa. Então, embora não existam conclusões ou verdades absolutas, é sempre bom saber que existem contrapontos para aquelas visões de mundo egoístas, nazistas e deprimentes. “Para que os maus vençam basta que os bons não façam nada.” (eheh, eu queria usar essa em algum lugar faz tempo)
2- Continue assim! Não saber das coisas não deveria ser limitação, mas incentivo. Essa vontade de aprender, entender e descobrir coisas que façam sentido de verdade é que nunca deveria morrer na gente. Mas costuma se perder no meio do caminho, em algum lugar da escola-decoreba. Muitos casos por aí de gente que lê tudo, decora tudo e não entende nada. Acadêmicos, inclusive. “Mais errado é aquele que fala correto e não vive o que diz” (F. Anitelli - TM)
Comentário por M. — July 22, 2006 @ 12:45 pm
Ah, puxa. Fiquei emocionada… (estou uma grande ‘jelly’ hoje)
Só o que sai é Obrigada… Obrigada por tudo, sempre. =)
Comentário por Jelly Legs Anita — July 22, 2006 @ 8:23 pm