Ah! Os Relógios
enviado por Jelly Legs Anita
Ah! Os Relógios
Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…
Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.
Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.
E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são…

Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu…
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez…
- Alberto Caeiro -
Comentário por M. — November 7, 2006 @ 6:20 pm
Mario Quintana in English
Ah, Watches! (Ah, os Relógios!)
Friends, to consult your watches will be useless
when, someday, I am gone from your lives
so lost in solving futile problems to survive
they seem to be obituaries in progress.
For time is an invention of death;
it is unknown to life, true life, that is,
when a single moment of poetry
is enough to give us all of eternity.
All of it, yes, because eternal life
can only by itself be divided;
it cannot be apportioned, bit by bit.
And the Angels trade looks of bewilderment
when someone —himself again, in the afterlife—
happens to ask them: “What time is it?”…
(translated by John D. Godinho)
Ah, Watches! in The Color of the Invisible
Comentário por John D. Godinho — September 23, 2009 @ 6:00 pm