Dessa náusea… ?
Difícil ser funcionário
Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.
Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.
É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.
Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.
Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.
E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.
Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança
Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…
Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.
* O ‘Carlos’ ao qual o poeta se refere é Carlos Drummond de Andrade, revelando a decisiva influência deste nas suas primeiras produções.

Só quem tem passado tem presente.Só quem tem presente, pressente futuro.
Comentário por Poetry — November 17, 2006 @ 1:22 am
“Qualquer mundo é válido se estiver vivo. A coisa a fazer é trazer vida a ele, e o único modo de fazer isto é descobrir, no seu caso pessoal, onde a vida se encontra, e tornar, você mesmo, vivo.”
- Joseph Campbell -
:) —> http://www.lugarnenhum.com/blog/?p=64
Comentário por M. — November 22, 2006 @ 10:03 pm
que época deliciosa, ter contato com todos eles, drummond, melo neto… é carlos, essas caixas são túmulos de um passado que não precisa mais….
Comentário por bibi.gil — November 23, 2006 @ 1:02 pm