January 24, 2007

Lições

categoria: Contrações
enviado por Jelly Legs Anita

Aprendendo lições

Domingo à tarde. Acordei. Chovia e simplesmente sorri… Sim, eu aprendi a gostar de dias chuvosos com alguém tão especial. Senti saudade e comecei a cantarolar: "Tua ausência fazendo silêncio em todo lugar". Porém silêncio também é bom! Era um bom começo, ainda mais para domingo que é um dia tão pregui… Interrupção.

Murmúrios, reclamações, xingamentos… "A chuva molhou toda a roupa que pendurei no varal", "A torneira quebrou","Nada mais funciona direito". Cara feia, mau humor. Realidade que está virando rotina… E é com essa que tenho que aprender a lidar… Apenas lidar pra conviver, pois o que quero pra mim é diferente. Não quero viver pra deixar o chuveiro pifado estragar meu fim de semana ou pra gritar com que estiver ao meu lado por conta da geladeira quebrada.

Vou levando, tentando… E no mais, quando tudo aperta demais, fixo o pensamento naquele olhar que me traga paz e na certeza que as coisas podem ser diferentes.  

E já são! As palavras da amiga Meleca me tocam: “Amizade que é verdadeira releva muitas coisas”. Disse fazendo referência a mim e a ela em situações distintas que vivemos.

Qualquer é o lugar pra brotar ensinamentos.

No lotação (aquela latinha com rodas que dizem ser transporte público) um senhor de aparência e vocabulário simples, contava à passageira ao lado sobre desenrolar do atropelamento que sofreu. Em nenhum momento pareceu abatido enquanto explicava que o carro era importado e era dirigido pelo mecânico da oficina onde a dona do veículo deixara para conserto.
O advogado quis processar o mecânico. O senhor Modesto não concordou: "Deixe pra lá, pois o tal não tem onde cair morto". Então o advogado pensou em processar a dona do veículo, e o senhor Modesto discordou novamente: "A pobre mulher nem sabia o que tava acontecendo… Pensava que o carro tava na oficina."

Quantas e quantas questões revoltantes essa história pode levantar!?

Pois bem, o senhor Modesto, com sua aparência, vocabulário e vida simples, sorrindo como sempre, disse que sua perna nunca mais seria a mesma e que dinheiro nenhum poderia recuperá-la. Agradeceu por não ter gasto muito com remédios, por ter sido bem atendido em hospital público. Ainda disse que o mais importante era a ser honesto e não se desfazer das pessoas.

E depois tem gente achando que uma geladeira quebrada é o fim do mundo.

A passageira ao lado disse para o senhor Simples: "Somos tudo carne podre".  Ela não entendeu nada do que ele disse, uma pena.

Há lições que fogem à escola, à educação, às explicações formuladas. E para ter acesso a essas, é bom caminhar com a mente disposta, o peito aberto, olhos e ouvidos atentos.

E uma vez me perguntaram: "Como é amar?"
Não tive resposta. Fiquei sem palavras…
Hoje eu diria: "Isso não se ensina, seu bosta"

4 Comentários »

  1. Uh, muito bom! As conexões foram bem feitas, sutil e simples. =) Acho bons os textos que se desdobram assim, pra dentro e pra fora enquanto a gente lê. Sei lá. É como ir abrindo um embrulho de presente que vai se revelando aos poucos. Um passeio pelo campo das idéias.

    Comentário por M. — January 24, 2007 @ 11:27 am

  2. Às vezes penso que sou louca, mas aí quando leio textos como esse, tenho certeza que as pessoas que gosto também não são tão normais assim… têm pensamentos loucos, atemporais, que vão e vem, misturam sonho e realidade… isso é magnífico, isso é ser autêntico e aos olhos dos outros ser louco e diferente.

    Comentário por Babi's — January 26, 2007 @ 10:00 am

  3. Ah, se todos fossemos como o Sr. Modesto…
    Ah, se todos tivessemos esse coração lindo, sincero e sensível que você tem…
    Mergulharia nesse mundo etéreo para nunca mais voltar.
    Mas pensando bem… Tudo depende da perspectiva em q se olha esse mundo feio… de repente ele pode parecer bonito, não é mesmo??
    E chega de gritar por causa da geladeira quebrado, do trânsito, do chefe chato etc etc…

    Como é amar??
    Realmente isso não se ensina…
    Mas quem sabe realmente vive…

    Beeeeijos e saudades

    Comentário por Denise — January 26, 2007 @ 11:26 am

  4. Passei aqui no final do dia.
    Há tanto tempo não nos falamos.
    A chuva, a casa.. outras tantas imagens.
    Sua sensível presença…

    Um beijo moça.

    Comentário por Luppi — January 26, 2007 @ 5:52 pm

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