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"Não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar."
"Não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar."
Semana passada numa reunião de trabalho, ouvi de um ‘colega’ que a chave do século XXI é a integração de informações, defendendo como positivas e revolucionárias as consequências da tal integração. O profetismo me fez lembrar uma crônica do Luís Fernando Veríssimo:
Pedindo uma pizza em 2009
- Telefonista: Pizza Hot, boa noite!
- Cliente: Boa noite, quero encomendar pizzas…
- Telefonista: Pode me dar o seu NIDN?
- Cliente: Sim, o meu número de identificação nacional é
6102-1993-8456-54632107.
-Telefonista: Obrigada, Sr.Lacerda. Seu endereço é Av. Paes de Barros, 1988 ap. 52 B, e o número de seu telefone é 5494-2366, certo? O telefone do seu escritório da Lincoln Seguros é o 5745-2302 e o seu celular é 9266-2566.
- Cliente: Como você conseguiu essas informações todas?
- Telefonista: Nós estamos ligados em rede ao Grande Sistema Central.
- Cliente: Ah, sim, é verdade! Eu queria encomendar duas pizzas, uma quatro queijos e outra calabresa…
- Telefonista: Talvez não seja uma boa idéia…
- Cliente: O quê?
- Telefonista: Consta na sua ficha médica que o Sr. sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a sua saúde.
- Cliente: É, você tem razão! O que você sugere?
- Telefonista: Por que que o Sr. não experimenta a nossa pizza Superlight, com tofu e rabanetes? O Sr. vai adorar!
- Cliente: Como é que você sabe que vou adorar?
- Telefonista: O Sr. consultou o site "Recettes Gourmandes au Soja" da Biblioteca Municipal, dia 15 de janeiro, às 14:27h, onde permaneceu ligado à rede durante 39 minutos. Daí a minha sugestão…
- Cliente: OK, está bem! Mande-me duas pizzas tamanho família!
- Telefonista: É a escolha certa para o Sr., sua esposa e seus 4 filhos, pode ter certeza.
- Cliente: Quanto é?
-Telefonista: São R$49,99.
- Cliente: Você quer o número do meu cartão de crédito?
- Telefonista: Lamento, mas o Sr. vai ter que pagar em dinheiro. O limite do seu cartão de crédito já foi ultrapassado.
- Cliente: Tudo bem, eu posso ir ao Multibanco sacar dinheiro antes que chegue a pizza.
- Telefonista: Duvido que consiga, o Sr. está com o saldo negativo no banco.
- Cliente: Meta-se com a sua vida! Mande-me as pizzas que eu arranjo o dinheiro. Quando é que entregam?
- Telefonista: Estamos um pouco atrasados, serão entregues em 45 minutos. Se o Sr. estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na moto não é aconselhável, além de ser perigoso…
- Cliente: Mas que história é essa, como é que você sabe que eu vou de moto?
- Telefonista: Peço desculpas, mas reparei aqui que o Sr. não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. Mas a sua moto está paga, e então pensei que fosse utilizá-la.
- Cliente: @#%/§@&?#>§/%#!!!!!!!!!!!!!
- Telefonista: Gostaria de pedir ao Sr. para não me insultar… não se esqueça de que o Sr. já foi condenado em julho de 2006 por desacato em público a um Agente Regional.
- Cliente: (Silêncio)
- Telefonista: Mais alguma coisa?
- Cliente: Não, é só isso… não, espere… não se esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na promoção.
- Telefonista: Senhor, o regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 095423/12, nos proíbe de vender bebidas com açúcar a pessoas diabéticas…
- Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! Vou me atirar pela janela!!!!!
- Telefonista: E machucar o joelho? O Sr. mora no andar térreo!
* * *
O mesmo ‘colega’ de trabalho (na mesma reunião) soltou a seguinte pérola: "É claro que mulher não vai se interessar por assunto de processamento de cluster". As mulheres presentes o fuzilaram com o olhar, e então tentando arrumar retrucou: "Não é assim que funciona? Eu não me interesso pelo seu crochê e você não se interessa por esses assuntos".
Mas o que esse comentário acrescentou à reunião ou ao trabalho que estava sendo desenvolvido?
A Constituição, o livre-arbítrio, a ignorância, a sociedade comodista e sei lá mais o que, garantem a esse cara o direito de pensar assim. Ótimo. Essas e outras coisas (um "Viva!" às possibilidades) me garantem o direito de pensar diferente. Ótimo.
Agora será que há garantias para ofensa mútua e desnecessária entre pessoas que, por mais distintas que sejam, precisam conviver entre si?
Existe um vão imenso entre as coisas que se pensa e as coisas que se pode dizer em qualquer lugar e a qualquer hora.
Uma coisa é eu pensar que a grande maioria dos engenheiros tem a cabeça quadrada, são preconceituosos e mal informados, e outra coisa é eu chegar todos os dias ao trabalho dizendo isso e ofendendo-os. Eu não faço questão (e nem me esforço) para esconder essa idéia deles, porém em prol do bom convívio no ambiente eu não chego simplesmente despejando o que penso nos ouvidos deles. E isso não é hipocrisia. É questão de respeito e bom senso.
Depois do texto do Veríssimo, só posso desejar que assim como em relação às mulheres, a idéia do cara de revolução tecnológica para o século XXI esteja equivocada e presa no início do século passado.
Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens.
"Não tenho certeza de nada, mas a visão das estrelas me faz sonhar."

Starry Night Over the Rhone, 1888.
*Especialmente para ela, que vive me surpreendendo… Ontem descobri que ela vai ao fundo do quintal admirar o céu e as etrelas, na calada da noite, quietinha pra não acordar ninguém…
O Avesso Dos Ponteiros
Sempre chega a hora da solidão
Sempre chega a hora de arrumar o armário
Sempre chega a hora do poeta a plêiade
Sempre chega a hora em que o camelo tem sede
O tempo passa e engraxa a gastura do sapato
Na pressa a gente nem nota que a Lua muda de formato
Pessoas passam por mim pra pegar o metrô
Confundo a vida ser um longa-metragem
O diretor segue seu destino de cortar as cenas
E o velho vai ficando fraco esvaziando os frascos
E já não vai mais ao cinema
(…)
A idade aponta na falha dos cabelos
Outro mês aponta na folha do calendário
As senhoras vão trocando o vestuário
As meninas viram a página do diário
O tempo faz tudo valer a pena
E nem o erro é desperdício
Tudo cresce e o início
Deixa de ser início
E vai chegando ao meio
Aí começo a pensar que nada tem fim…
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